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ao sul do futuro | museu lasar segall

September 7, 2018

 

 

 

Em 1941, o escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) publicou o livro Brasil, país do futuro. O texto reflete o encantamento do autor com os trópicos durante seu período de exílio, quando acontecia a Segunda Guerra Mundial. Alguns anos antes da publicação do livro, em 1935, a família Danziger chegava ao Rio de Janeiro também em busca de refúgio por causa do antissemitismo nazista. Uma década antes, em 1923, o artista Lasar Segall fixa residência em São Paulo.

 

Setenta anos depois das palavras de Zweig, o Brasil ainda aguarda o momento de atingir seu sonhado futuro; ao sul da Europa (e do eurocentrismo) temos aprendido que viver o presente talvez seja a melhor resposta para o anseio futurista do Modernismo – especialmente na jovem democracia brasileira. O que Leila Danziger propõe em sua pesquisa como artista visual e poeta é um convite a um olhar cético, fruto dos traumas históricos que nos trazem ao agora. Para alcançarmos isso, é preciso termos um pé no aqui (presente) e o outro no lá (passado).

 

As narrativas acerca do processo de migração não apenas de sua família, mas de milhares de judeus-alemães que enxergavam o Brasil como território para um novo começo, são centrais nesta exposição. Peças gráficas são matéria e tema dos trabalhos reunidos – agendas, livros de literatura e livros didáticos – e nos fazem refletir sobre a esfera afetiva que puderam um dia ter. As manchas nos papéis são essenciais para nos lembrarmos do acúmulo temporal e para percebermos suas contaminações por fluidos corporais e lugares de condicionamento. Os móveis da sala de estar e do escritório de uma família podem se tornar gavetas de um arquivo histórico.

 

Bildung (“formação cultural”, em alemão), instalação na primeira sala, é constituída de livros alemães trazidos pelos seus avós paternos. Goethe, Lessing, dentre outros autores, foram transportados ao sul do globo tanto como objeto de estudo, ou como lembrança de um norte para o qual o retorno era incerto. A chegada ao país colocava os imigrantes entre a tentativa de preservar uma língua e o encontro com o português. A essa biblioteca transatlântica foram acrescentados livros didáticos sobre a “história do Brasil”, resultados da profissão da avó materna e da mãe da artista, ambas professoras. Muitos deles foram impressos durante o período do Estado Novo, a ditadura militar, e não é pouco comum notarmos em suas capas o apelo à noção abstrata de “pátria”. Fugiu-se do nacionalismo radical alemão e logo esses corpos se chocaram com as ondas de repressão dos nacionalismos tropicais.

 

A justaposição de imagens é um método recorrente na produção da artista e está presente não apenas nessas imagens com cunho informativo, mas na série em que agendas em branco são costuradas ou sustentadas por ímãs. Livros coletados durante a remodelação da biblioteca da Associação Scholem Aleichem (Rio de Janeiro) também são costurados e deixam entrever a presença do ídiche em sua superfície. Costurar esses papéis é atribuir peso a eles e nos leva a refletir tanto sobre o vazio daqueles espaços em branco destinados a anotações, quanto ao silenciamento do ídiche, idioma composto pela costura da apropriação de várias línguas.

 

Sobre estes trabalhos, um olhar atento notará a presença de carimbos que citam algumas imagens emblemáticas. Reproduzido na entrada está o carimbo usado na série de obras que dá nome à exposição; trata-se de uma citação ao Mar de gelo (1823-1824), pintado pelo alemão Caspar David Friedrich (1774-1840). Na imagem original, duas embarcações estão naufragadas e misturadas com blocos de gelo. No percurso das imigrações que tiveram o Brasil como ponto de chegada, muitas vidas naufragaram fisicamente e existencialmente. Os blocos de gelo derreteram devido ao poder solar do Sul, mas a incerta saudade daqueles que seguiram no norte gélido instaurou em alguns dos novos brasileiros a mesma impossibilidade de ação dos barcos de Friedrich. Há quem chame esse fenômeno de melancolia.

 

A pesquisa de Leila Danziger toca em algumas questões muito caras a Lasar Segall, o morador da casa que agora é este Museu. Estabelecer essas relações pelo viés do judaísmo faz sentido e se configura como o diálogo mais seguro. Gostamos, porém, de ver suas imagens e refletir sobre o seu interesse em representar cenas de momentos de ensino, letras do alfabeto hebraico e, claro, o seu olhar complacente com figuras humanas em situação de emigração – assim como sua biografia é a de um imigrante.

 

Se hoje Lasar Segall é essencial referência para a história da arte no Brasil, não nos esqueçamos de que em sua juventude ele foi um nome de passageiro em um barco ao sul do futuro – como ocorre com tantas pessoas cujos nomes próprios seguem a desaparecer no Atlântico.

 

Raphael Fonseca - curador

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