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Felicidade-em-abismo

exposição individual realizada na Capela da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro

Fotos: Wilton Montenegro

 

 

textos

Todas as imagens da felicidade, Marisa Flórido César

Compromisso, Raphael Fonseca

Sem gaze nos olhos, Wilton Montenegro

Felicidade-em-abismo

 

No início de Sans Soleil, Chris Marker insere uma cena de seis segundos, em que três crianças caminham sob um fundo luminoso. Olham furtivamente para a câmera, que oscila ao acompanhá-las, como se tivesse sido surpreendida e precisasse responder àquele acontecimento inesperado. Para anunciar o aparecimento da imagem, a narradora conta que a cena foi filmada em uma estrada na Islândia, em 1965. Logo em seguida, a informação: “Dizia que, para ele, aquela era a imagem da felicidade”. Mas isso é dito quando tudo já desapareceu e a narração se faz contra um fundo enegrecido. Ficamos sabendo ainda que à cena deveriam ter sido associadas outras imagens, mas nada funcionou, e por isso ela permanece isolada, separada do continuum do filme.

 

Também eu precisei responder à imagem da felicidade. Talvez o início tenha sido a cena da menina palestina, vestida com túnica preta e véu cor-de-rosa, brincando em um parque. Embora as fronteiras a nossa volta estivessem tomadas por impasses até agora insolúveis ou, ainda, pela convulsão de revoluções esperançosas, ali estávamos, em frente ao mar de Tel Aviv-Jaffa, a nos balançar, a brincar entre as ondas, a realizar casamentos e danças.​

 

Esta exposição apresenta as margens do projeto que orientou minha permanência em Israel de janeiro a junho de 2011. Trabalhei então com a mídia impressa que circulava no país, construindo narrativas a partir do apagamento das imagens dos jornais, a imagem da imagem (já a imagem-em-abismo?). O título Felicidade-em-abismo refere-se tanto ao rebatimento das imagens em um abismo de espelhos, quanto à situação política no Oriente Médio, ‘abismada’, ou seja, rebatida infinitamente em conflitos labirínticos. Os vídeos – que reúnem instantes de felicidade – são inseridos em dois pequenos móveis semelhantes a cristaleiras, onde as imagens em movimento se misturam a objetos diversos. O condensado de matéria que assim surge é minha tentativa de responder à pergunta: como guardar felicidade?

 

Leila Danziger, setembro de 2012

 

 

Happiness-in-abyss

 

In the beginning of Sans Soleil, Chris Marker inserts a six-second sequence, in which three children walk under a luminous background. They look furtively at the camera, which swings to accompany them, as if it had been surprised, and needed to respond to that unexpected event. To introduce that image, the narrator tells us that the scene was recorded on a road in Iceland, in 1965. Soon after, the information: “He said that for him, that was the image of happiness”. But this is said when everything has already disappeared and the narration is made against a darkened background. We also learn that the scene should have had other images associated with it, but nothing worked, therefore it remained isolated, apart from the continuum of the film.

 

I also had to respond to the image of happiness. Maybe it started with the scene of the Palestinian girl, in the black robe and pink veil playing in a park. In spite of the frontiers all around us being taken by impasses, until now insoluble or even by the commotion of hopeful revolutions, there we were, at the seashore of Tel Aviv-Jaffa, on the swings, playing in the waves, carrying out weddings and dances.

This exhibition shows the margins of the project that guided my stay in Israel, from January to June of 2011. I worked then with the printed media circulating in the country, building narratives, which began with the deletion of newspaper images, the image of the image (already the image in the abyss). The title “Happiness-in-Abyss” refers to images reflecting in an abyss of mirrors as well to the political situation in the Middle East, abysmal, or rather, infinitely reflecting in labyrinthine conflict. The videos — which gather moments of happiness — are embedded in two little pieces of furniture similar to china closets, where the moving images mix with various objects. The condensation of material that appears as a result is my attempt to answer the question: how to store happiness?

 

Leila Danziger, September 2012