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Escritas insignificantes | Centro de Artes da UFF | 6 abril a 14 maio

A que murmura

perdeu a língua materna

e um continente

Leïla Danziger, Ano Novo

Em De vulgari eloquentia, Dante afirma que, à exceção da língua criada por Deus (ao mesmo tempo que o primeiro homem), cada uma de nossas línguas foi reconstituída segundo nossa disposição para a confusão, “que não era nada mais do que o esquecimento da língua anterior”. Sendo o homem um animal variável e mutável, diz que nossas línguas não podem ter qualquer duração ou continuidade. E que, assim como nossos hábitos e costumes, “nossas línguas devem necessariamente variar no que diz respeito ao espaço e ao tempo”.

Também no trabalho de Leïla a confusão babélica é deflagrada pelo esquecimento da língua anterior. “O que desaparece, o que resiste”, um dos vídeos da sua série com jornais, projetado logo na entrada da Galeria, e que de certo modo pauta o ritmo do percurso expositivo, coloca frontalmente essa questão. O gesto - embora violento - de dilacerar os jornais, não é destrutivo. O que ele opera é um arresto da linguagem perecível dos noticiários, na tentativa de achar (“oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti”) uma carnadura poética.

Como a própria Leïla diz num texto intitulado justamente O Jornal e o Esquecimento: “Os jornais traduzem a falácia de um tempo linear, vazio e homogêneo; tão logo surgem, acumulam-se numa massa de esquecimento, transformam-se em dejetos da atualidade.” No caso do trabalho exposto aqui, é relevante considerar que os jornais apagados são israelenses, impressos na época da Primavera Árabe (a série de movimentos de resistência civil em países do Oriente Médio e Norte da África, eclodida em dezembro de 2011).

As atrocidades, tão logo noticiadas, perdem seu efeito de espetáculo. A atrofia da experiência humana, apontada por Walter Benjamin, pode ser compreendida na velocidade com que as notícias do desastre babélico (“nossa disposição para a confusão”, como escreveu Dante)se tornam ultrapassadas, se tornam banais. O apagamento dos jornais não é uma simples denúncia de um efeito. Não é um panfleto, uma nostalgia da lentidão. É a busca por criar um espaço intersticial onde as palavras noticiadas continuem existindo (o fundo arrancado ainda é o fundo), mas onde o papel, a pura materialidade do papel se transforme na escrita daquilo que o repórter cala.

A língua criada para resistir ao desaparecimento, para resistir à nossa falta de memória, para resistir a si mesma, é a língua da boca que não diz (senão aquilo que não pode dizer): “A que murmura / perdeu a língua materna / e um continente”.

A potência, a beleza do trabalho da Leïla consiste na forma sofisticada de propor a sobrevivência da poesia. Aqui torna-se clara a falta de fronteiras entre o poema e a imagem. Há uma arrebatadora sinergia entre as palavras e os objetos, no seu trabalho (a insistência em resistir ao desaparecimento, ao esquecimento). Entretanto, a língua de Leïla não precisa de palavras. No caso das (em) obras expostas aqui, é o papel que (des)escreve a escrita. As agendas em branco do pai ausente dizem Todos os dias de nossas vidas. A sua língua, a língua da poesia, é (para usar uma expressão de Daniel Heller-Roazen, em “Ecolalias: sobre o esquecimento das línguas”), um ser que sobrevive a si próprio."

Marcelo Reis de Mello

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THE GRAPHS PROJECT

The Graphs Project gathers relevant stuff (pictures, essays, interviews) about experiences situated on the border between the graphical, pictorial and scriptural, from the Paleolithic to the 21st century. This exchange between artists, writers and researchers becomes an international dossier on the subject matter.

Curators: Marcelo Reis de Mello and Khalil Andreozzi.


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