(...) Papéis de um dia (Cinelândia), instalação de Leila Danziger composta por 44 folhas (65 x 50 cm cada) e 3 fotogravuras, alça clamores abafados e acena para um tempo ainda não presente. Estruturados por grades recheadas de parágrafos borrados, os jornais emudecidos de Papéis de um dia (Cinelândia) parecem desonrar o relato evidente da mera informação, apontando para a poesia visual do painel realizada com carimbos, uma pintura mural. Silenciando a notícia com manchas quadriculadas que misturam o azul, o lilás e o vermelho, Papéis de um dia (Cinelândia) convoca a poesia – o livro Cinelândia repousa ao lado, fora do quadro, esperando um leitor para os poemas da artista. Que outras narrativas poderiam conter as páginas de um jornal? Três imagens sugerem o espaço da política, do protesto, da manifestação, mas no tempo inspirador da espera. Uma menina instala-se no alto do monumento de 1910 ao Marechal Floriano Peixoto e acena para a multidão não visível. Ela nos interpela. Seu gesto imobilizado sugere a suspensão. Houve derrotas? O gesto da menina antecipa futuros. Uma lacuna da grade do jornal-pintura sugere um tempo por vir."

 

Luiz Cláudio da Costa

Espaços do Ainda: perspectivas para arte política no século XXI

catálogo da exposição Espaços do Ainda, Paço Imperial, Rio de Janeiro, 2022.

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