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Saudades de um punhal [para Carol D'Utra Vaz]

December 8, 2015




Deixou-se escorregar pela parede
(as costas bem protegidas
e os pés sólidos).
Prosseguia em movimentos
milimétricos
exatos
   exaustos
      crepusculares
como se tarde demais
além da validade dos desejos
[lá onde a redenção não alcança?]


Em novembro de 2008, dei início a um blog – esparso, lento, ocasional. Via-o como uma extensão pública do ateliê. Pensava-o sem leitores, a não ser por uma amiga francesa, tão querida quanto distante, que vivia na Nova Caledônia. Agradava-me a ideia de que meus textos e imagens vagassem solitários pelo espaço virtual repleto de ruínas de tantos blogs desatualizados, um universo já cheio de escombros.

Em abril de 2009, encontrei um comentário de uma desconhecida sobre um texto que eu havia publicado sobre meu pai. Dias depois, retornou. Deixou outros dois comentários. Conversamos sobre Celan, Amichai, barcos em mares que não existem, xales de oração, vestidos que se animam com o vento, djellabas. Brinquei que assim talvez passasse a levar meu suposto blog a sério. Dia sim, dia não, passei a visitá-la também e ver o que escrevia em Saudades de um punhal, seu blog mantido com regularidade, cujo título fazia alusão a um fragmento de Robert Walser.

 

Certo dia, ao acessar seu blog, não encontrei nenhuma nova postagem, mas um comentário trazia a notícia de sua morte, ocorrida em São Paulo, em uma madrugada fria de sábado, 30 de maio de 2009. Não sei mais o que se passava no mundo naquele dia, mas em minha agenda, encontrei a anotação: “abrir avenidas pela casa”.

Penso ainda nesse encontro cuja duração foi a de um fósforo que se acende e se apaga. Nos esbarramos em uma calçada, enquanto seguíamos em direções opostas na multidão. Ela deixou cair um objeto. Eu o recolhi, quero devolvê-lo, ainda corro em sua direção, tento localizar seu vulto de costas (é sempre de costas que ela se mostra em seu perfil on line). Procuro decifrar a fricção desse encontro feito apenas de escrita, reter o objeto deixado para trás. Reli inúmeras vezes sua última postagem que descreve um percurso de alguém arduamente treinado em inconstâncias, uma fuga-em-abismo por entre estações de metrô e linhas de ônibus, cujo ponto de chegada era o link para um outro blog.

Entre outras características, ela se identificava como “chronically melancholic, great cook, obsessed with psychoanalysis and detective novels, lazy in the mornings and sarcastic at nights”. Tinha pouco mais de trinta anos. Nunca soube o motivo de sua morte. No penúltimo dia de maio, costuma ser lembrada à rua Dinamarca, número 32, Jardim Europa, São Paulo.

Neste livro, apenas recolho e edito: as vozes, os escombros, a noite. É uma homenagem, em estado de espera, ao blog desaparecido, à escrita tão aberta aos encontros de Carol D’Utra Vaz.
 

Leila Danziger

Rio de Janeiro, maio de 2014.

Coleção Orelhas Contemporâneas
Portela, Marco Antonio (organizador)
Rio de Janeiro: Editora Circuito, 2015.

http://editoracircuito.com.br/website/saudades-de-um-punhal-leila-danziger/

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